Positividade tóxica: por que ignorar nossas sombras não funciona?

“Pense positivo”, “Mentalize coisas boas”, “Sorria, você não tem motivos para reclamar”. Em uma sociedade alimentada por frases de efeito nas redes sociais, existe uma tentativa de fazer com que a felicidade seja reduzida a uma escolha diária. Nessa ótica, qualquer sentimento desconfortável, como tristeza, raiva ou frustração, é visto como um sinal de fracasso pessoal e deve ser eliminado o quanto antes. Essa busca obsessiva por um estado de otimismo inabalável gerou um fenômeno moderno adoecedor: a positividade tóxica.

O custo clínico de silenciar as emoções

A psicologia moderna e os estudos sobre regulação emocional mostram que tentar suprimir uma emoção “negativa” não a faz sumir. Pelo contrário: o esforço cognitivo para ignorar a tristeza ou o medo funciona como tentar segurar uma bola de plástico embaixo d’água. Exige uma energia imensa e, mais cedo ou mais tarde, a bola escapa e emerge com uma força ainda maior.

Cientificamente, pesquisas na área da saúde mental demonstram que a repressão emocional crônica está diretamente associada ao aumento do estresse, a sintomas de ansiedade generalizada e até a manifestações psicossomáticas (quando o sofrimento da mente se traduz em dores físicas, como por exemplo, problemas gastrointestinais, de pele ou baixa imunidade). Silenciar a dor não é curá-la; é apenas trancá-la no porão.

O olhar junguiano: o perigo de ignorar a sombra

Para a psicologia analítica de Carl Jung, essa tentativa de viver uma vida baseada apenas no que é belo, perfeito e positivo é um caminho perigoso de desintegração da psique. Jung introduziu o conceito de Sombra para descrever tudo aquilo que existe em nós, mas que não aceitamos ou que a sociedade nos ensinou a esconder: os nossos ciúmes, as nossas fraquezas, os nossos medos, a nossa agressividade e a nossa tristeza.

Quando nos obrigamos a exibir uma Persona (a nossa máscara social) constantemente feliz e bem-sucedida, toda a nossa dor legítima é empurrada para a Sombra. O problema é que a Sombra é uma parte viva da nossa psique. Quanto mais fingimos que ela não existe, mais ela nos governa a partir do inconsciente, manifestando-se em autossabotagem, crises de ansiedade inexplicáveis ou explosões emocionais desproporcionais.

Trago aqui uma citação de Jung que ilustra bem este tema: “Ninguém se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas sim tornando a escuridão consciente”. Sendo assim, amadurecimento emocional não nasce de fingir que não temos problemas, mas sim de olhar de frente para as nossas feridas.

Acolher a dor é o verdadeiro caminho da cura

O oposto da positividade tóxica não é o pessimismo ou o vitimismo, mas sim a autenticidade. Ao transformarmos a alegria em uma obrigação, criamos uma tirania que nos afasta da nossa própria espontaneidade, um ingrediente indispensável se quisermos nos conectar com nosso bem estar. Além disso, reforça um sentimento de inadequação e fracasso quando nos deparamos com algo que não nos agrada. 

Ter uma vida emocional saudável significa permitir-se sentir o espectro completo do que é ser humano. Estar triste após uma perda, sentir raiva diante de uma injustiça ou experimentar o medo diante do desconhecido são reações legítimas e necessárias. As emoções difíceis são sinalizadores da nossa alma; elas nos avisam quando algo merece atenção ou acolhimento.

No processo terapêutico, o objetivo nunca é fazer o paciente sorrir o tempo todo. É, na verdade, construir um espaço seguro e acolhedor onde ele possa finalmente abaixar a guarda e dizer: “Hoje eu não estou bem, e está tudo bem não estar”.

Ao acolhermos as nossas sombras, retiramos delas o poder de nos assustar. Só quando aceitamos a nossa vulnerabilidade é que encontramos a verdadeira força para nos transformar. Se você está cansado de tentar ser forte e positivo o tempo todo, lembre-se: a sua totalidade inclui também os seus dias nublados, e você não precisa se desculpar por eles.

Referências Bibliográficas:

Gross, J. J. (2002). Emotion regulation: Affective, cognitive, and social consequences. Psychophysiology

Jung, C. G. (Obras Completas – Volume 9/2): Aion – Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo

Jung, C. G. (Obras Completas – Volume 13): Alquimia e Psicologia

Wood, J. V., Perunovic, W. Q., & Beeharie, J. W. (2009). Positive self-statements: Power for some, peril for others. Psychological Science

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